Um homem disparou dois tiros de caçadeira sobre o próprio irmão. A tragédia ocorreu em Ançã, quarta-feira à noite. A vítima está na unidade maxilofacial dos HUC, embora livre de perigo. Tudo aconteceu após violenta discussão entre ambosA população de Ançã ficou em estado de choque com a tragédia que ali ocorreu quarta-feira à noite, na Rua da Califórnia, na zona histórica da vila. Dois irmãos envolveram-se em acesa discussão e no calor da refrega, um deles apodera-se de uma caçadeira e dispara sobre o outro. Dois tiros que atingiram Jorge Manuel Cardoso Filipe, de 51 anos, solteiro, na zona da cara, pescoço, cabeça e braços. A vítima foi socorrida pelo INEM e transportada para os Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC), onde se encontra na unidade maxilofacial em estado considerado com alguma gravidade mas estável, não correndo perigo de vida, apurou o Diário de Coimbra junto do responsável clínico deste unidade.A tragédia, segundo o que a nossa reportagem apurou no local, adivinhava-se há algum tempo em virtude do clima de grande tensão que se vivia em casa de Maria José Cardoso Penetra, de 85 anos, mãe dos dois irmãos desavindos, com quem vivia. Curiosamente, os vizinhos, a mãe destes dois irmãos e outros familiares, garantiram ao nosso Jornal que a vítima (Jorge Manuel) «já merecia uma coisa destas», uma vez que, contaram, «tem feito a vida negra à mãe, ameaça-a e trata-a do piorio. A senhora tem sofrido horrores com aquele filho».Por outro lado, quem conhece esta família de Ançã, é unânime em reconhecer o autor dos disparos, João Carlos Cardoso Filipe, de 47 anos, solteiro, como «um homem trabalhador, amigo da mãe, o sustento da família», e que só fez o que fez «porque estava farto das infâmias do irmão», que, contaram à nossa reportagem alguns dos vizinhos desta família, «até dizia que a mãe mantinha contactos sexuais com o João. Veja só o que ele (Jorge) inventava para ofender a própria mãe e irmão», disse uma vizinha à nossa reportagem, que preferiu omitir o seu nome.«Ele é um monstro, sempre tratou mal a mãe, que já teve de fugir de casa porque ele ameaçou-a de morte», corroborava um vizinho, enquanto confortava a idosa, ontem, quando a nossa reportagem chegou à Rua da Califórnia, onde Maria José desabafava a sua tristeza e comentava a tragédia.Tudo começou à hora do jantar de quarta-feira passada. Eram pouco mais de 20h00 quando Jorge e João começaram a discutir, enquanto a mãe preparava o jantar. Discussão que foi subindo de tom e de insultos, até que, de acordo com as informações recolhidas pelo nosso Jornal, João Carlos, «farto de ser maltratado pelo irmão, perdeu a cabeça e pegou na caçadeira e deu-lhe dois tiros».A zanga entre ambos, que já motivou «várias cenas de pancadaria nos últimos tempos», voltou a ter origem nas alegadas ameaças de Jorge à mãe e àquele irmão, ao que João Carlos, desta vez, «perdeu a cabeça e descontrolou-se», embora, contam os vizinhos, «não tivesse intenção de matar o Jorge».Um dos disparos atingiu a vítima na zona da face, pescoço e cabeça, outro nos braços e costas, deixando Jorge em mau estado, mas livre de lesões que ameacem a sua vida.Um neto (e sobrinho dos dois irmãos) foi quem deu o alerta para o 112, que enviou para o local uma ambulância do INEM para prestar os primeiros socorros e transportar a vítima aos HUC, enquanto que o CODU alertava a GNR de Ançã para o sucedido.Uma patrulha desta força policial encontrou João Carlos «muito nervoso», o qual «assumiu o acto que cometeu e entregou-se de livre vontade», contou ao nosso Jornal o comandante do posto de Ançã, sargento Mano, confirmando também que o agressor entregou a arma do crime «de livre e espontânea vontade».O agressor, que passou a noite nos calabouços da GNR, foi ontem à tarde presente ao juiz de instrução do Tribunal de Cantanhede na presença do advogado de defesa, Pedro Guina, de ontem saiu para o estabelecimento prisional de Coimbra. Uma situação, todavia, provisória, uma vez que a medida de coação aplicada contempla a prisão domiciliária com pulseira electrónica, cuja efectivação (a realizar na casa de um irmão) só poderá ser concretizada após uma inspecção por uma equipa judicial, no sentido de averiguar das reais condições. Refira-se ainda que esta foi a alternativa encontrada, uma vez que a casa onde reside, com a mãe e os irmãos (um dos quais a vítima) não reúne as condições necessárias.“Tenho medo que ele me mate”A mãe de Jorge e João, contou ao nosso Jornal viver «num grande pesadelo». Apesar da sua avançada idade (85 anos), diz que o que lhe tem valido «é, felizmente, não ter nenhuma doença, senão já tinha morrido». O desabafo da idosa tem a ver com «os maus-tratos que o meu filho Jorge me dá», inclusive – contou ao nosso Jornal, «já me ameaçou de morte e tive de fugir de casa para ele não me bater».Maria José, que teve 10 filhos «criados com tanto amor e muitas dificuldades», com as lágrimas nos olhos, diz não saber por que é que aquele filho «é assim tão ruim, tão malvado, ao ponto de me querer matar».A sua aflição é tão grande que, conta, «quando ele sair do hospital não o quero em casa, tenho medo que ele me mate». O seu receio é ainda maior por causa do que aconteceu, pois agora, desabafa, «ainda é capaz de fazer pior do que tem feito».Já em relação ao seu filho João Carlos, autor dos disparos, Maria José não tem dúvidas em afirmar que «é um rico filho, muito trabalhador. É ele quem sustenta a casa e o irmão, é uma jóia de pessoa. Só fez isto porque estava farto».Por ter aquele feitio violento, muita gente da vila de Ançã diz que Jorge Manuel sofre de perturbações mentais e, por isso reage contra a família, mas a idosa nega tal facto, afirmando que o filho «não sofre nada da cabeça. Era epiléptico e por causa disso não quer trabalhar, mas ele está bom», remata Maria José, preocupada, sim, com o que possa acontecer «ao meu filho João».
In diário de coimbra