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segunda-feira, 27 de Outubro de 2008

Não aos maus tratos - Por Lara Guina

Ao longo de vários séculos, verificou-se um tratamento inadequado e agressões a crianças, sob as mais diversas formas. As crianças são muito frágeis, indefesas e dependentes, o que as torna bastante vulneráveis à violência, ao abuso e à exploração. Só nos meados do século XX é que passou a ser vista como um ser social, integrante e parte preciosa da sociedade. O reconhecimento e valorização do papel da família e do ambiente no desenvolvimento da criança tornaram-se indiscutíveis e a Pediatria Social passou a assumir um papel de especial relevo.
Em 1991 foram criadas as Comissões de Protecção de Menores, com sede nas autarquias locais, integradas por representantes dos tribunais, técnicos de serviço social, médicos e elementos da autarquia e da comunidade. Em 2001, este modelo de protecção foi reformulado e foram criadas as Comissões de Protecção de Crianças e Jovens, localizadas nos municípios e constituídas por uma equipa multidisciplinar. Estas instituições visam promover os direitos da criança e do jovem e prevenir ou acabar com situações que afectem a sua segurança, saúde, formação, educação ou desenvolvimento integral.
Qualquer cidadão comum que tenha conhecimento de maus tratos a qualquer criança ou jovem pode e deve informar estas Comissões de Protecção de Crianças e Jovens. Os maus tratos podem classificar-se em diversos tipos: mau trato físico, negligência, abuso sexual, mau trato psicológico. O mau trato físico é o mais frequentemente diagnosticado nas instituições de saúde, é responsável por uma elevada morbilidade e a principal causa de mortalidade. A negligência consiste na incapacidade de proporcionar à criança a satisfação das suas necessidades de cuidados básicos de higiene, alimentação, afecto e saúde, indispensáveis ao seu crescimento e desenvolvimento normais. A negligência é uma forma muito frequente de mau trato, insidiosa e de graves repercussões para a criança, nomeadamente o risco de morte, acidentes, atraso de crescimento e desenvolvimento e alterações de comportamento. Quanto ao abuso sexual, este, talvez seja o mau trato mais traumatizante para a criança. A incapacidade dos pais em proporcionar à criança um ambiente de tranquilidade, bem estar emocional e afectivo, indispensável ao crescimento, desenvolvimento e comportamento adequados, também é considerada um mau trato, mau trato psicológico, de difícil definição e diagnóstico.
Existem alguns factores de risco, inerentes aos pais e à criança, associados a uma situação de crise. Os principais factores de risco nos pais são: antecedentes de maus tratos na sua própria infância, características de personalidade imatura e impulsiva, maior vulnerabilidade ao stress, mudanças frequentes de companheiros e de residência, antecedentes de criminalidade e hábitos de alcoolismo ou toxicodependência. São consideradas crianças de risco: as que são filhas de mães muito jovens, solteiras ou sós, de gravidez não desejada, as que não correspondem às expectativas dos pais, as crianças portadoras de alguma deficiência ou doença crónica. Todos estes factores de risco dos pais e das crianças combinados com situações de crise, como por exemplo, desemprego, dificuldades económicas, divórcio dos pais, depressão de um elemento da família, poderão contribuir para o aparecimento de maus tratos.
É importante que estas famílias sejam ajudadas. A escola, o centro de saúde, a acção social, assim como as CPCJ têm a função de sinalizar as famílias e de lhes prestar o melhor apoio possível. Mas a sociedade também as pode ajudar, basta um telefonema ou uma carta para uma destas instituições para que seja feita a sinalização e averiguada a situação.

Lara Guina - Psicologa Clinica

terça-feira, 21 de Outubro de 2008

Terá Santana Lopes 7 vidas?

O que mais aliciante existe na política, é a forma como repentinamente certa situações podem mudar, como da noite para o dia.
Santana Lopes fez sucesso como autarca. Ganhou onde o PSD nunca tinha ganho (Figueira da Foz), ganhou a Câmara da Capital ao PS e ascendeu a líder do PSD e a Primeiro-Ministro com a fuga de Durão Barroso para a Europa.
Com a demissão do Governo de Santana Lopes, este ficou politicamente morto, perdendo as eleições para José Sócrates e o partido para Marques Mendes.
Com a ascensão de Luís Filipe Meneses a líder do PSD, Santana voltou às luzes da ribalta. Rapidamente se tornou líder da bancada parlamentar do PSD, tendo enchido as galerias da Assembleia da República para o embate entre o mesmo e José Sócrates.
Com a saída de Luís Filipe Meneses, é retirada a Santana Lopes a liderança da bancada parlamentar, contudo rapidamente se começou a falar do mesmo como possível candidato à Câmara Municipal da Figueira da Foz.
Hoje Santana Lopes é outra vez o centro das atenções como o candidato mais bem colocado para a Câmara de Lisboa. Os populistas do PSD batem palmas de contentes. Os barões já mostraram o seu desagrado.
A verdade é que Santana anda por aí, e ao que parece, vai estar presente nas próximas autárquicas, seguramente captando mais atenção da imprensa do que a líder do PSD Manuela Ferreira Leite.

segunda-feira, 20 de Outubro de 2008

Quando os filhos crescem e as preocupações também - Por Lara Guina

Após o nascimento do primeiro filho, o casal começa uma nova etapa no seu ciclo de vida. Além de cônjuges, são também pais e é muito importante que a conjugalidade seja articulada com a parentalidade. Assim, cabe aos pais fazer crescer os filhos, permitindo-lhes uma construção da sua própria identidade através da socialização, para que eles possam ir ganhando a sua autonomia. Mas para isso não devem condicionar as suas escolhas, não devem ter expectativas demasiado altas nem devem esperar que os seus filhos exerçam a profissão que eles sempre quiseram exercer.
Entre pais e filhos é fundamental que exista uma relação vertical, isto é, quem tem o poder, quem dita regras bem definidas, quem transmite valores são os pais. Apesar de serem os pais os detentores do poder, não quer isto dizer que não haja compreensão e que não se ouçam uns aos outros. Uma liberdade sem regras e limites não é saudável nem segura para as crianças.
Muitos pais sentem dificuldades em lidar com os seus filhos, ou porque são demasiado irrequietos, ou porque têm dificuldades de aprendizagem ou até porque são desobedientes. Existe uma série de perturbações que afectam muitas crianças e todo o meio que as rodeiam, desde os pais, avós, amigos, familiares, professores, escola, etc. O meio que rodeia uma criança é bastante alargado, pois a partir do momento em que entra para o infantário nascem muitas novas relações sociais.
Outros, apenas sentem dificuldades na comunicação com os filhos quando estes entram na fase da adolescência. E é quando a adolescência lhes bate à porta que eles se deparam com novas preocupações. Os filhos começam a querer sair à noite com os amigos, como fazem os primos e os irmãos, começam a namorar e quererem estar mais tempo sozinhos nos seus quartos. As saídas com os pais começam a ser bastante aborrecidas, pois em vez de quererem ir às compras com os pais ou visitarem familiares, preferem ter os seus próprios programas para o fim-de-semana. Esta situação dá origem a muitos conflitos familiares, pois os pais nem sempre concordam com as ideias dos filhos, o que reforça as divergências entre as duas gerações. A luta pela autonomia está patente.
Esta fase implica um período de grandes mudanças em que todos se tornam, de alguma forma, uma novidade para os restantes. Pais e filhos têm uma grande dificuldade em se compreenderem e em convencerem o outro a aceitar o seu ponto de vista; não sabem quando devem estar presentes e dar apoio ou quando o devem deixar sozinho. Esta etapa é bastante longa e difícil, pois exige constantemente um equilíbrio entre as exigências da família e as exigências individuais de cada membro.
A adolescência é habitualmente vista como uma aventura e, nesta fase é mais preciso amor do que temor, para poder ultrapassá-la com sucesso. O adolescente luta imenso para alcançar a sua autonomia e a sua identidade e, a sociedade concede-lhe um período de desperta e de experimentação de papéis, enquanto este ainda não está preparado para assumir compromissos dos adultos. Mas apesar desta necessidade de tempo e de espaço, há pais que mesmo antes dos seus filhos entrarem na adolescência têm um conjunto de ideias já formadas sobre esta fase. Assim surge o medo da toxicodependência, do alcoolismo e da falta de um projecto de vida. Para apaziguar os seus medos, os pais tentam controlar ao máximo os seus filhos, proibindo-os de muita coisa, relativamente ao que não devem fazer ou às relações que não podem ter. Por vezes estas ordens são mal recebidas pelos jovens e a comunicação entre os diferentes elementos da família deixa de funcionar, acabando por se afastarem um pouco. Esta estratégia utilizada pelos pais não é muito benéfica porque os adolescentes precisam de regras claras, precisas e coerentes; consequentemente, necessitam de um sistema executivo forte ainda que flexível.
Por Lara Guina

quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

“Senti as rodas do comboio a passarem junto à minha cabeça”

Vítima do acidente ferroviário em Santa Comba conta como a porta se abriu e foi projectada para o exterior, com o comboio em andamento

Maria Natália Costa da Silva Pereira Nunes está internada no Hospital de S. Teotónio, em Viseu, depois de ter sofrido a amputação das duas pernas, na sequência de um acidente ferroviário, na estação da CP de Vimieiro, Santa Comba Dão. A professora do ensino secundário, de 69 anos, reformada, ficou com a perna esquerda amputada 10 centímetros acima do joelho e a direita foi cortada 15 centímetros abaixo do joelho. Em perspectiva tem uma vida em cadeira de rodas. Todavia, por estranho que possa parecer, não se revoltou contra a má sorte. Serenamente e com uma coragem única, afirma que «tenho de aprender a viver de outra maneira». E quem passou uma vida inteira a ensinar, lembra que «aprendemos todos os dias», dando graças a Deus por «ter ficado com a cabeça a funcionar na perfeição».
Natália Pereira Nunes, residente em Cabanas de Viriato, quer ainda lançar um alerta em nome da segurança de quem circula de comboio, uma vez que «foi um acidente imprevisível» que a deixou sem pernas. E a professora sublinha que, contrariamente ao que se pensou na altura do acidente, ocorrido na passada quarta-feira, não saiu do comboio em andamento, antes foi «projectada para a porta», acabando por cair entre o cais e a linha.
A doente contou-nos que foi a Lisboa e embarcou, com destino a Santa Comba Dão, na estação do Oriente, às 12h00. Tomou o Intercidades e entrou para a carruagem 23. Levantou-se do seu lugar e quando o comboio chegou ao Vimieiro, preparou-se para sair. «Fui para a porta e esperei que o comboio parasse para mexer no manípulo de abertura da porta», afirma, recordando as recomendações visíveis no local, que alertam para não manipular a porta com o comboio em andamento. Cumpriu as indicações e quando, com o comboio parado, mexeu no manípulo, «a porta abriu cerca de 10 centímetros. Não era possível ninguém sair», sublinha. A professora reformada tentou alertar para a situação e colocou o braço de fora. Contou-nos que passou um homem «com uma camisa branca, mas talvez ele não tenha visto». Natália Pereira Nunes afirma que já tem uma vasta experiência em viagens de comboio e rapidamente percebeu que o tempo estava a passar e que não «conseguia sair naquela estação». Preparava-se, então, para regressar ao lugar e sair na próxima paragem, que seria Carregal do Sal. «Depois viria buscar o meu carro de táxi», contou-nos.

Alerta para evitar
outros acidentes
Todavia, não foi isso que aconteceu. «Quanto subi o primeiro degrau – para ter acesso à carruagem propriamente dita – já com o comboio em andamento, a porta escancarou-se completamente. Os 10 centímetros transformaram-se numa porta aberta e a corrente projectou-me para fora», contou ao nosso Jornal. Natália diz que ainda se agarrou ao varão exterior e «fui sentindo os degraus a bateram-me nas pernas e a escorregar», tendo acabado por cair. «Pensei: vou morrer e encolhi-me entre a parede do cais e a linha. Sentia as rodas do comboio a passarem-me junto à cabeça». E assim ficou. Terão passado três carruagens, admite, sublinhando que «estou a ultrapassar tudo muito bem».
Natália nunca perdeu a serenidade e deu aos bombeiros os contactos dos familiares, no sentido de serem avisados e hoje, internada na cama 1 da enfermaria de Ortopedia, não tem problemas em contar o que se passou. Serena, conta como sentiu as rodas a passarem próximas, «mas não me atingiram nem na cabeça, nem nos braços, só os degraus é que me partiram as pernas todas». «Tive uma sorte muito grande, pois fique com a minha cabeça a funcionar a perfeição», remata, optimista.
Natália Pereira Nunes tem consciência que «não há testemunhas, porque ninguém mais saiu naquela porta e não sei se alguém viu o meu sinal para o perigo», e faz questão de lançar o alerta, no sentido de evitar que outros sofram acidentes desta natureza. A professora reformada já presenciou e ouviu falar de situações semelhantes, em que as portas de comboios rápidos bloquearam, impedindo os passageiros de sair. Ultimamente, de resto, tem viajado repetidas vezes para Lisboa e na semana passada aconteceu «uma situação semelhante com um rapaz que entrou no Entroncamento e também não conseguiu sair, em Santarém, porque a porta não abriu». Mas, «como era um rapaz novo, correu para a outra porta e lá conseguiu sair a tempo», afirma. «Tenho presenciado outras situações e sabido de vários casos», como o de um colega de profissão que «não conseguiu sair em Coimbra».
Por comparação, Natália considera mais seguro o sistema de portas dos comboios regionais, uma vez que nos rápidos «muitas vezes não abrem». «Quero que as pessoas estejam avisadas para que não volte a acontecer. A mim já não me ajuda, tenho de aprender a viver de outra maneira», mas «é um perigo público», especialmente para as «muitas pessoas de idade e com problemas de mobilidade que circulam nos comboios», adverte.

Família vai avançar
com processo contra a CP

O marido, Jorge Luís dos Santos Nunes, tenente-coronel do Exército reformado, sublinha a coragem da esposa, confessando que nem ele próprio, com uma vasta experiência em cenários de guerra, teria a capacidade de Natália para encarar a nova realidade como esta está a fazer. A vida do casal, reconhece, sofreu uma “reviravolta” e «vamos ter de nos adaptar» à medida que os tempos vão passando, refere, pensando na forma como terá de remodelar a vivenda onde vivem, em Cabanas de Viriato, para obviar as escadas e garantir a melhor mobilidade à esposa.
Para além dessa perspectiva futura, o tenente-coronel tem como certa «a obrigação moral» de avançar com um processo contra a CP. «Estamos perante um serviço público que deveria garantir segurança e não garante», afirma. A família já constituiu advogado, que hoje mesmo reúne como o Ministério Público (MP) de Santa Comba Dão, no sentido de averiguar se este avança ou não com um processo-crime por ofensas corporais involuntárias. «Se o MP avançar, ao mesmo tempo nós avançamos com uma acção de responsabilidade civil», acrescenta, dando como certo que o processo vai avançar, por vontade da família, independentemente da decisão do MP.
Para além da «deficiência que vai marcar o resto da vida da minha mulher, que vai ficar numa cadeira de rodas», Santo Nunes aponta um conjunto de deficiências ao serviço da CP, a começar pelo facto de ser o revisor quem dá o sinal de partida ao comboio e não alguém que esteja na estação e tenha uma visão ampla da composição. «Não há um elemento que fiscalize, a CP poupa em recursos humanos e põe em causa a segurança das pessoas», afirma. Refere ainda o sistema de funcionamento das portas, pouco seguro, que acabou por projectar a mulher para a linha e amputar-lhe as pernas.
«Não há nada que possa resolver a situação, nem pagar os danos sofridos, mas tenho a obrigação moral de avançar com o processo para Tribunal, apontando a responsabilidade da CP neste acidente sem sentido», remata.
IN DIARIO DE COIMBRA